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Manifestação anti-Franco: A 22 de fevereiro de 1952, realizou-se um importante comício na Sala Wagram, em Paris, sob o lema «Franco ainda mata!», para protestar contra os crimes de Franco e contra as condenações à morte de onze membros da Confederação Nacional do Trabalho (CNT) em Sevilha e Barcelona. Organizado pela Liga dos Direitos do Homem e presidido por Émile Kahn, o evento reuniu George Altman, André Breton, Albert Béguin, Albert Camus, Louis Guilloux, Jean-Paul Sartre, René Char, Ignacio Silone e outros intelectuais. Fernando Gómez Peláez, do jornal Solidaridad Obrera, e Josep Ester Borràs, da Federação Espanhola dos Deportados e Internados Políticos (FEDIP), participaram na sua organização. O texto (que a seguir transcrevemos para português) lido por André Breton foi publicado, sob o título «Discurso de Wagram», em Le Libertaire ( orgão da Federação Anarquista), de 6 de março de 1952. Este protesto e outros que tiveram lugar por toda a Europa não puderam impedir a execução de cinco dos condenados — os anarquistas Pere Adrover Font, José Pérez Pedrero, Santiago Amir Gruañas, Ginés Urrea Piña e Jordi Pons Argilés — fuzilados a 14 de março de 1952 no Camp de la Bota, em Barcelona (Catalunha).
André Breton militou no PCF entre 1927 e 1935, rompendo definitivamente com o regime estalinista soviético. Após a saída do PCF, Breton não abandonou logo o marxismo, fundando em 1938, no México, com Trotsky a Federação Internacional da Arte Revolucionária Independente, defendendo a arte livre de qualquer controle político. Posteriormente, Breton aproximou-se das posições libertárias e, posteriormente, do anarquismo, colaborando com a imprensa anarquista e participando em campanhas de solidariedade, sobretudo com as vítimas da repressão franquista.
Discurso de André Breton:
Camaradas,
Se algures no mundo o coração da liberdade ainda pulsa, se há um lugar onde o seu pulsar nos atinge com mais força do que em qualquer outro local, todos sabemos que esse lugar é Espanha. É exaltante pensar que quinze anos de ditadura não a quebraram.
Durante as greves de Barcelona de março de 1951, pôde constatar-se que não só a combatividade dos meios operários e universitários não tinha diminuído em nada, como também um contágio magnífico se estendia imediatamente ao conjunto da população, isolando de um só golpe os defensores e beneficiários do regime e colocando-os em posição de serem expulsos como um corpo estranho.
Todos os que relataram essas greves, mesmo sem profunda simpatia pelo longo sofrimento do povo espanhol, ficaram impressionados com a sua extraordinária rapidez de propagação. Manifestamente, tratava-se de um fenómeno que contrariava todos os seus prognósticos.
Compreendiam mal como um simples boicote aos elétricos, decidido devido ao aumento da tarifa de transporte, podia ter assumido tal amplitude. As surpresas sucediam-se: a polícia tinha curiosamente tardado a reagir, o exército mantivera-se na expectativa, uma greve envolvendo várias centenas de operários fora desencadeada por telefone, por ordem evidentemente apócrifa da Falange.
Uma mistificação dessa envergadura (os correspondentes de imprensa concordam em atribuir-lhe importância decisiva) parece dar o tom desses dias quase insurrecionais. Chegou-se a dizer que foi o humor que, do princípio ao fim do movimento, lhe conferiu a sua “unidade de estilo”. Assim, contrariamente ao que se poderia esperar dos meios de coerção sobre os quais assenta uma ditadura, tal movimento revelou-se possível e, no caminho da sua generalização, só por pouco pôde ser travado.
Mais significativo ainda: nesta circunstância, a vitória integral pertenceu aos grevistas. Recordemos que as companhias tiveram de renunciar ao aumento do bilhete de elétrico, que o governador e o chefe da polícia de Barcelona foram substituídos, assim como o dirigente provincial dos sindicatos fantoche autorizados por Franco. Acima de tudo, retenhamos que as sanções aplicadas na sequência da revolta catalã tiveram de ser levantadas, obtendo os grevistas o pagamento dos salários mediante horas extraordinárias.
Há aqui um facto novo que não pode ser demasiado meditado. Isto não pode deixar de ser interpretado como uma grande fissura que afeta no seu conjunto toda a estrutura ditatorial.
Pode-se matar, procurar aviltar tudo o que pode ser aviltado, brandir alternadamente o crucifixo e a metralhadora, esfomear um povo e isolá-lo do resto da comunidade humana — e, ainda assim, não se acaba com a alma desse povo, tal como ela se encarnou na minha infância na pessoa de Francisco Ferrer e se temperou na bravura lendária da C.N.T. e da F.A.I.
Detectaram-se sem dificuldade algumas das causas imediatas dos acontecimentos de Barcelona. Paul Parisot, na revista Preuves, insiste na miséria das massas, na asfixia económica da Espanha. «Momento de la Producción», segundo órgão económico espanhol (e o do patronato catalão), reconhecia, em novembro de 1950, que, para se alimentar, o operário catalão precisava de 141,5% do seu salário. O correspondente da United Press em Paris assinalava, nas últimas semanas de dezembro, um aumento de 30% nos produtos de primeira necessidade, como pão, açúcar e ovos. A isto, acrescentava, junta-se o êxodo maciço do campo para as cidades — essencialmente para Barcelona —, que agrava a miséria urbana, onde já reina o desemprego, e provoca uma diminuição muito sensível da superfície de terras cultivadas.
Estas considerações, de facto essenciais, têm apenas um defeito: ignoram aquela chama escura, peculiar ao génio espanhol, que, através de Goya, foi impecavelmente transmitida de Cervantes de Numância a Federico García Lorca. É esta chama que sempre me comoveu ver reflectida nos olhos dos nossos camaradas espanhóis no exílio, seja aqui ou em qualquer parte do mundo. Houve tantos grandes navegadores na sua história que estou convencido de que alcançarão aquilo porque têm lutado incessantemente, apesar dos ventos contrários.
Será inteira justiça, inteira reparação para eles e para nós. Não esqueçamos que o monstro que, por algum tempo, ainda nos mantém à sua mercê afiou as garras em Espanha. Foi lá que começou a destilar os seus venenos: a mentira, a divisão, a desmoralização, o desaparecimento; foi lá que, pela primeira vez, fez reluzir os seus fuzis ao romper da manhã e as suas câmaras de tortura ao cair da noite. Os Hitlers, os Mussolinis, os Stalines tiveram ali o seu laboratório de dissecação, a sua escola prática. Os fornos crematórios, as minas de sal, as escadas escorregadias da N.K.V.D., a expansão sem limites do mundo concentracionário foram homologados a partir dali. É de Espanha que escorre esse sangue indelével testemunhando uma ferida que pode ser mortal para o mundo. Foi em Espanha que, pela primeira vez, o direito de viver em liberdade foi atingido.
Camaradas, ao dizer estas coisas, tenho consciência de que não me afasto daquilo que nos une esta noite. Onze dos nossos camaradas em Espanha estão agora destinados às balas de Franco. Sabendo que a maioria deles está presa há quase dois anos, é demasiado claro que, desta forma, Franco está a testar a opinião internacional para ver se ela aceitará, numa escala muito maior, a repressão da revolta de Fevereiro-Março de 1951, que se estima ter resultado em milhares de prisões.
Mesmo que desconhecêssemos a natureza do delito que expõe à morte os nossos onze camaradas, é evidente que não poderíamos aceitar uma sentença pronunciada por oficiais fascistas, após um simulacro de defesa por fascistas — sem falar no escândalo que constitui, em qualquer parte, o facto de um indivíduo investido como magistrado pedir e obter «a cabeça dos outros».
Mas conhecemos a natureza do delito e sabemos também sob que lei infame ele cai: a «lei de repressão contra o banditismo e o terrorismo», decretada a 18 de abril de 1947. Basta refletir um instante sobre essas palavras — banditismo, terrorismo — para reconhecer que podem ser abusivamente aplicadas a qualquer atividade de resistência à ordem, por exemplo à que foi oposta aqui ao fascismo alemão.
Não é menos evidente que os meios de lutar contra essa ideologia, uma vez que ela usurpou o poder, não podem ser diferentes, quer nos situemos há alguns anos na França ocupada, quer hoje na Espanha amordaçada, amarrada, mas não vencida. Esses meios aprendemos a conhecê-los, e não temos a memória tão curta que possamos exigir que sejam pacíficos. Seria, agora ou nunca, a ocasião de dizer aos juízes de Sevilha e de Barcelona: «Que os senhores assassinos comecem».
Outros, além de mim, manifestar-se-ão esta noite contra a série de injustiças que marcaram o desenrolar do caso que temos diante de nós. A famosa técnica da «amálgama», aperfeiçoada em processos como os de Moscovo, permite, uma vez mais, reunir sob a mesma acusação camaradas que não negam os atos de que são acusados e camaradas que nada fizeram disso, sem que possamos distingui-los nas condições de sufocamento impostas (julgamentos à porta fechada, informações reduzidas a cinco linhas nos jornais de Barcelona e de Madrid).
Mas não é essa a questão: a nossa solidariedade deve dirigir-se indistintamente a todos. Como em toda a ação de resistência, seria imperdoável dissociar daqueles que agiram com maior coragem os que a acusação mistura com eles para atingir, nestes, a simples oposição passiva ao regime.
Como observa Solidaridad Obrera, órgão da C.N.T. espanhola no exílio, a acusação de «banditismo» cai por si mesma quando se lê este parágrafo do primeiro relatório do juiz de instrução, que sublinha suficientemente o carácter político-social da perseguição:
«Estes grupos perpetraram em Barcelona, objetivo principal da sua atividade, com a intenção de prosseguir, por atos criminosos — aqui, os ocupantes nazis não teriam falado de outra forma —, a sua obra de perturbação da ordem social. Nesse local, receberam o apoio dos membros da sua organização (a C.N.T.), que não só colocaram ao seu serviço elementos de agitação e grupos organizados — organizados, não o dizem por acaso —, como também lhes forneceram informações. Além disso, faziam proselitismo para difundir as ideias anarco-sindicalistas de ação direta e transmitir instruções aos grupos de ação.»
Como podemos ver, esta é precisamente a forma de resistência contra o fascismo que foi aqui mais valorizada. Sobretudo, camaradas, não duvidemos da eficácia do nosso protesto. Franco está longe de dispor dos meios que permitem, por detrás da «cortina de ferro», organizar esses grandes julgamentos-espetáculo em que os acusados superam as testemunhas de acusação e olham complacentemente para o seu carrasco. É obrigado a agir na sombra e, como mostraram as greves de Barcelona, não é impossível fazê-lo recuar.
Antes que seja tarde demais — pois, segundo as últimas notícias, os falsos advogados dos nossos camaradas vieram avisá-los de que iam ser fuzilados —, levantemo-nos todos a uma só voz para exigir a revisão pública dos processos de Sevilha e de Barcelona, com verdadeiros advogados que tenham tido tempo de estudar o processo e com a presença de observadores estrangeiros. . A todo o custo, e com a máxima urgência, encontremos também uma forma de enviar uma mensagem aos nossos camaradas como esta: «Em nome de todos os homens livres e também de todos os que aspiram a libertar-se, obrigado. Não percam a esperança: estamos aqui convosco em pensamento e de coração.»
«Vida e glória à heroica C.N.T. espanhola!»













