Discurso de André Breton de solidariedade com os anarquistas condenados à morte por Franco em 1952


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Manifestação anti-Franco: A 22 de fevereiro de 1952, realizou-se um importante comício na Sala Wagram, em Paris, sob o lema «Franco ainda mata!», para protestar contra os crimes de Franco e contra as condenações à morte de onze membros da Confederação Nacional do Trabalho (CNT) em Sevilha e Barcelona. Organizado pela Liga dos Direitos do Homem e presidido por Émile Kahn, o evento reuniu George Altman, André Breton, Albert Béguin, Albert Camus, Louis Guilloux, Jean-Paul Sartre, René Char, Ignacio Silone e outros intelectuais. Fernando Gómez Peláez, do jornal Solidaridad Obrera, e Josep Ester Borràs, da Federação Espanhola dos Deportados e Internados Políticos (FEDIP), participaram na sua organização. O texto (que a seguir transcrevemos para português) lido por André Breton foi publicado, sob o título «Discurso de Wagram», em Le Libertaire ( orgão da Federação Anarquista), de 6 de março de 1952. Este protesto e outros que tiveram lugar por toda a Europa não puderam impedir a execução de cinco dos condenados — os anarquistas Pere Adrover Font, José Pérez Pedrero, Santiago Amir Gruañas, Ginés Urrea Piña e Jordi Pons Argilés — fuzilados a 14 de março de 1952 no Camp de la Bota, em Barcelona (Catalunha).

André Breton militou no PCF entre 1927 e 1935, rompendo definitivamente com o regime estalinista soviético. Após a saída do PCF, Breton não abandonou logo o marxismo, fundando em 1938, no México, com Trotsky a Federação Internacional da Arte Revolucionária Independente, defendendo a arte livre de qualquer controle político. Posteriormente, Breton aproximou-se das posições libertárias e, posteriormente, do anarquismo, colaborando com a imprensa anarquista e participando em campanhas de solidariedade, sobretudo com as vítimas da repressão franquista.

Discurso de André Breton:

Camaradas,

Se algures no mundo o coração da liberdade ainda pulsa, se há um lugar onde o seu pulsar nos atinge com mais força do que em qualquer outro local, todos sabemos que esse lugar é Espanha. É exaltante pensar que quinze anos de ditadura não a quebraram.

Durante as greves de Barcelona de março de 1951, pôde constatar-se que não só a combatividade dos meios operários e universitários não tinha diminuído em nada, como também um contágio magnífico se estendia imediatamente ao conjunto da população, isolando de um só golpe os defensores e beneficiários do regime e colocando-os em posição de serem expulsos como um corpo estranho.

Todos os que relataram essas greves, mesmo sem profunda simpatia pelo longo sofrimento do povo espanhol, ficaram impressionados com a sua extraordinária rapidez de propagação. Manifestamente, tratava-se de um fenómeno que contrariava todos os seus prognósticos.

Compreendiam mal como um simples boicote aos elétricos, decidido devido ao aumento da tarifa de transporte, podia ter assumido tal amplitude. As surpresas sucediam-se: a polícia tinha curiosamente tardado a reagir, o exército mantivera-se na expectativa, uma greve envolvendo várias centenas de operários fora desencadeada por telefone, por ordem evidentemente apócrifa da Falange.

Uma mistificação dessa envergadura (os correspondentes de imprensa concordam em atribuir-lhe importância decisiva) parece dar o tom desses dias quase insurrecionais. Chegou-se a dizer que foi o humor que, do princípio ao fim do movimento, lhe conferiu a sua “unidade de estilo”. Assim, contrariamente ao que se poderia esperar dos meios de coerção sobre os quais assenta uma ditadura, tal movimento revelou-se possível e, no caminho da sua generalização, só por pouco pôde ser travado.

Mais significativo ainda: nesta circunstância, a vitória integral pertenceu aos grevistas. Recordemos que as companhias tiveram de renunciar ao aumento do bilhete de elétrico, que o governador e o chefe da polícia de Barcelona foram substituídos, assim como o dirigente provincial dos sindicatos fantoche autorizados por Franco. Acima de tudo, retenhamos que as sanções aplicadas na sequência da revolta catalã tiveram de ser levantadas, obtendo os grevistas o pagamento dos salários mediante horas extraordinárias.

Há aqui um facto novo que não pode ser demasiado meditado. Isto não pode deixar de ser interpretado como uma grande fissura que afeta no seu conjunto toda a estrutura ditatorial.

Pode-se matar, procurar aviltar tudo o que pode ser aviltado, brandir alternadamente o crucifixo e a metralhadora, esfomear um povo e isolá-lo do resto da comunidade humana — e, ainda assim, não se acaba com a alma desse povo, tal como ela se encarnou na minha infância na pessoa de Francisco Ferrer e se temperou na bravura lendária da C.N.T. e da F.A.I.

Detectaram-se sem dificuldade algumas das causas imediatas dos acontecimentos de Barcelona. Paul Parisot, na revista Preuves, insiste na miséria das massas, na asfixia económica da Espanha. «Momento de la Producción», segundo órgão económico espanhol (e o do patronato catalão), reconhecia, em novembro de 1950, que, para se alimentar, o operário catalão precisava de 141,5% do seu salário. O correspondente da United Press em Paris assinalava, nas últimas semanas de dezembro, um aumento de 30% nos produtos de primeira necessidade, como pão, açúcar e ovos. A isto, acrescentava, junta-se o êxodo maciço do campo para as cidades — essencialmente para Barcelona —, que agrava a miséria urbana, onde já reina o desemprego, e provoca uma diminuição muito sensível da superfície de terras cultivadas.

Estas considerações, de facto essenciais, têm apenas um defeito: ignoram aquela chama escura, peculiar ao génio espanhol, que, através de Goya, foi impecavelmente transmitida de Cervantes de Numância a Federico García Lorca. É esta chama que sempre me comoveu ver reflectida nos olhos dos nossos camaradas espanhóis no exílio, seja aqui ou em qualquer parte do mundo. Houve tantos grandes navegadores na sua história que estou convencido de que alcançarão aquilo porque têm lutado incessantemente, apesar dos ventos contrários.

Será inteira justiça, inteira reparação para eles e para nós. Não esqueçamos que o monstro que, por algum tempo, ainda nos mantém à sua mercê afiou as garras em Espanha. Foi lá que começou a destilar os seus venenos: a mentira, a divisão, a desmoralização, o desaparecimento; foi lá que, pela primeira vez, fez reluzir os seus fuzis ao romper da manhã e as suas câmaras de tortura ao cair da noite. Os Hitlers, os Mussolinis, os Stalines tiveram ali o seu laboratório de dissecação, a sua escola prática. Os fornos crematórios, as minas de sal, as escadas escorregadias da N.K.V.D., a expansão sem limites do mundo concentracionário foram homologados a partir dali. É de Espanha que escorre esse sangue indelével testemunhando uma ferida que pode ser mortal para o mundo. Foi em Espanha que, pela primeira vez, o direito de viver em liberdade foi atingido.

Camaradas, ao dizer estas coisas, tenho consciência de que não me afasto daquilo que nos une esta noite. Onze dos nossos camaradas em Espanha estão agora destinados às balas de Franco. Sabendo que a maioria deles está presa há quase dois anos, é demasiado claro que, desta forma, Franco está a testar a opinião internacional para ver se ela aceitará, numa escala muito maior, a repressão da revolta de Fevereiro-Março de 1951, que se estima ter resultado em milhares de prisões.

Mesmo que desconhecêssemos a natureza do delito que expõe à morte os nossos onze camaradas, é evidente que não poderíamos aceitar uma sentença pronunciada por oficiais fascistas, após um simulacro de defesa por fascistas — sem falar no escândalo que constitui, em qualquer parte, o facto de um indivíduo investido como magistrado pedir e obter «a cabeça dos outros».

Mas conhecemos a natureza do delito e sabemos também sob que lei infame ele cai: a «lei de repressão contra o banditismo e o terrorismo», decretada a 18 de abril de 1947. Basta refletir um instante sobre essas palavras — banditismo, terrorismo — para reconhecer que podem ser abusivamente aplicadas a qualquer atividade de resistência à ordem, por exemplo à que foi oposta aqui ao fascismo alemão.

Não é menos evidente que os meios de lutar contra essa ideologia, uma vez que ela usurpou o poder, não podem ser diferentes, quer nos situemos há alguns anos na França ocupada, quer hoje na Espanha amordaçada, amarrada, mas não vencida. Esses meios aprendemos a conhecê-los, e não temos a memória tão curta que possamos exigir que sejam pacíficos. Seria, agora ou nunca, a ocasião de dizer aos juízes de Sevilha e de Barcelona: «Que os senhores assassinos comecem».

Outros, além de mim, manifestar-se-ão esta noite contra a série de injustiças que marcaram o desenrolar do caso que temos diante de nós. A famosa técnica da «amálgama», aperfeiçoada em processos como os de Moscovo, permite, uma vez mais, reunir sob a mesma acusação camaradas que não negam os atos de que são acusados e camaradas que nada fizeram disso, sem que possamos distingui-los nas condições de sufocamento impostas (julgamentos à porta fechada, informações reduzidas a cinco linhas nos jornais de Barcelona e de Madrid).

Mas não é essa a questão: a nossa solidariedade deve dirigir-se indistintamente a todos. Como em toda a ação de resistência, seria imperdoável dissociar daqueles que agiram com maior coragem os que a acusação mistura com eles para atingir, nestes, a simples oposição passiva ao regime.

Como observa Solidaridad Obrera, órgão da C.N.T. espanhola no exílio, a acusação de «banditismo» cai por si mesma quando se lê este parágrafo do primeiro relatório do juiz de instrução, que sublinha suficientemente o carácter político-social da perseguição:

«Estes grupos perpetraram em Barcelona, objetivo principal da sua atividade, com a intenção de prosseguir, por atos criminosos — aqui, os ocupantes nazis não teriam falado de outra forma —, a sua obra de perturbação da ordem social. Nesse local, receberam o apoio dos membros da sua organização (a C.N.T.), que não só colocaram ao seu serviço elementos de agitação e grupos organizados — organizados, não o dizem por acaso —, como também lhes forneceram informações. Além disso, faziam proselitismo para difundir as ideias anarco-sindicalistas de ação direta e transmitir instruções aos grupos de ação.»

Como podemos ver, esta é precisamente a forma de resistência contra o fascismo que foi aqui mais valorizada. Sobretudo, camaradas, não duvidemos da eficácia do nosso protesto. Franco está longe de dispor dos meios que permitem, por detrás da «cortina de ferro», organizar esses grandes julgamentos-espetáculo em que os acusados superam as testemunhas de acusação e olham complacentemente para o seu carrasco. É obrigado a agir na sombra e, como mostraram as greves de Barcelona, não é impossível fazê-lo recuar.

Antes que seja tarde demais — pois, segundo as últimas notícias, os falsos advogados dos nossos camaradas vieram avisá-los de que iam ser fuzilados —, levantemo-nos todos a uma só voz para exigir a revisão pública dos processos de Sevilha e de Barcelona, com verdadeiros advogados que tenham tido tempo de estudar o processo e com a presença de observadores estrangeiros. . A todo o custo, e com a máxima urgência, encontremos também uma forma de enviar uma mensagem aos nossos camaradas como esta: «Em nome de todos os homens livres e também de todos os que aspiram a libertar-se, obrigado. Não percam a esperança: estamos aqui convosco em pensamento e de coração.»

«Vida e glória à heroica C.N.T. espanhola!»

(no quarto aniversário da invasão russa da Ucrânia) Com os desertores russos e ucranianos por um mundo sem exércitos nem fronteiras


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Por ocasião do quarto aniversário da invasão russa da Ucrânia, quisemos unir-nos ao apelo lançado pela Assembleia Antimilitarista para dar visibilidade e apoio aos desertores russos e ucranianos. Por esta razão, hoje quisemos lançar simbolicamente uma mensagem de deserção de todas as guerras sob o monumento militarista na Colina de San Giusto, que homenageia, de forma nacionalista e machista, os soldados mortos na Primeira Guerra Mundial. As faixas diziam “Solidariedade com os desertores russos e ucranianos” e “Desertemos das guerras: por um mundo sem senhores nem fronteiras”.

Passaram quatro anos desde a violenta escalada da guerra desencadeada pela invasão russa da Ucrânia. O conflito está cada vez mais acirrado: foram registadas centenas de milhares de mortes em ambos os lados da frente.O governo italiano tomou partido nesta guerra enviando armas e destacando até 3.500 soldados em missões da NATO na Europa de Leste.

Uma base militar italiana será inaugurada em breve na Bulgária.
A guerra na Ucrânia está enraizada no seu ADN como um conflito inter-imperialista de enormes proporções, que corre o risco de desencadear um conflito muito mais vasto entre potências que também possuem armas nucleares.
Impedi-la, dificultá-la e sabotá-la é uma necessidade essencial.
Na Ucrânia, existem duzentos mil desertores; na Rússia, dezenas de milhares de pessoas atravessaram a fronteira para evitar o alistamento militar.
Na Rússia e na Ucrânia, os antimilitaristas lutam para manter as fronteiras abertas àqueles que se opõem à guerra.
Apoiamos a luta para derrubar fronteiras e acolher objetores, desertores e aqueles que se esquivam ao alistamento.
Não nos aliamos à NATO nem à Rússia. Rejeitamos os jogos vergonhosos de Trump, Putin e da UE à custa de populações exaustas pela guerra, silenciadas por regimes que reprimem duramente aqueles que se lhes opõem activamente

O preço desta guerra está a ser pago pelos pobres. Em todos os lugares.
Está a ser pago por opositores, sabotadores, objetores de consciência e desertores, que são sujeitos a espancamentos, julgamentos e prisão.
Todos estamos a pagar, presos na espiral da inflação, entre salários de fome, pensões e rendas e contas cada vez mais altas.
Tente imaginar quantas escolas, hospitais e transportes públicos locais poderiam ser financiados se a investigação e a produção fossem utilizadas para a vida de todos nós, para tratamento em vez de guerra.
O decreto de rearme do governo de Meloni destina mil milhões de euros para tornar o arsenal disponível para as forças armadas italianas cada vez mais letal.
A Itália está envolvida em 43 missões militares no estrangeiro, principalmente em África, onde as tropas italianas fazem guerra aos migrantes e defendem os interesses de gigantes como a ENI.
Vários projectos de lei visam restabelecer gradualmente o serviço militar obrigatório, suspenso em 2005. Fornece carne para canhão para as guerras em que a Itália está na linha da frente.
As escolas e as universidades tornaram-se campos de batalha para o alistamento de corpos e consciências.
A indústria bélica italiana, liderada pela gigante Leonardo, gera milhares de milhões em lucros.
A Itália vende armas a todos os países em guerra. Um negócio de morte.
Precisamos de derrubar a lógica perversa que vê a indústria de armamento como o motor que tornará a Itália mais próspera. Uma economia de guerra só produz mais guerra.
A guerra também é interna. O governo responde à pobreza abordando as questões sociais em termos de ordem pública: os soldados da operação “Ruas Seguras” podem ser encontrados em bairros pobres, em postos de abastecimento de combustível, em estações de comboio e nas fronteiras.
Toda a forma de oposição social e política é criminalizada com um conjunto de leis antigas e novas que garantem uma impunidade cada vez maior para a polícia e transformam as práticas normais de combate em crimes.
Só uma humanidade internacional pode lançar as bases para este mundo de pessoas livres e iguais que pode pôr fim à guerra.
Hoje querem que todos nos alistemos. Desertamos.
Não nos alistamos ao lado deste ou daquele estado imperialista. Rejeitamos a retórica patriótica como meio de legitimar os Estados e as suas reivindicações expansionistas. Em todos os lugares. Não existem bons nacionalismos.
Apoiamos aqueles que, em todos os cantos da Terra, rejeitam a guerra.
Queremos um mundo sem fronteiras, exércitos, opressão, exploração e guerra.

Grupo Anarquista Germinal, 22 de fevereiro de 2026 (Itália)

Recordando Paul Avrich



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Passaram vinte anos desde a morte do historiador Paul Avrich, a 16 de Fevereiro de 2006, mas a sua influência no estudo do anarquismo americano continua a ser inigualável.


~ Tom Goyens ~

Conheci o Paul em Outubro de 2000, num simpósio realizado na Colecção Labadie, na Universidade de Michigan, em Ann Arbor. Na altura, procurava um tema para a minha dissertação e, com alguma incerteza, propus um estudo sobre os anarquistas imigrantes alemães. Paul respondeu com entusiasmo imediato e incentivou-me a prosseguir com a pesquisa. Foi tudo o que eu precisava.

Nesta breve reflexão, situo a obra de Avrich no contexto mais vasto da historiografia anarquista nos Estados Unidos e explico porque é que o seu contributo não foi meramente aditivo, mas transformador. Fez mais do que resgatar um movimento negligenciado; reformulou os termos sob os quais o anarquismo poderia ser estudado, compreendido e debatido no âmbito da historiografia académica.

Durante grande parte do século XX, os anarquistas americanos e o seu movimento foram largamente privados da atenção madura e matizada que mereciam. Quando o interesse ressurgiu nas décadas de 1960 e 1970, tal ocorreu sobretudo através de antologias e obras polémicas que ligavam as ideias anarquistas ao ativismo contemporâneo. Estas obras foram inegavelmente importantes; lançaram luz sobre a relevância duradoura do anarquismo, mas não conseguiram fornecer as histórias francas e sensíveis que o movimento exigia.

Foi precisamente neste contexto que a obra de Avrich ganhou forma. Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, manteve-se em grande parte afastado das disputas metodológicas que acompanharam a ascensão da “nova história social”. O seu percurso académico foi moldado por outros fatores, como a sua origem familiar, a sua formação linguística e, sobretudo, a sua imersão precoce na história russa. Estas influências afastaram-no das tendências predominantes na historiografia americana.

Nascido na cidade de Nova Iorque em 1931, filho de uma atriz de teatro iídiche, Avrich concentrou-se inicialmente no radicalismo russo em vez da história do movimento operário americano. A sua dissertação de 1961 examinou os comités de fábrica durante a Revolução Russa. Esta pesquisa levou-o à União Soviética durante a relativa liberalização da era Khrushchev. Enquanto trabalhava na Biblioteca Lenine, em Moscovo, Avrich encontrou materiais sobre a revolta de Kronstadt de 1921 e o papel dos anarquistas na oposição à repressão bolchevique. Esta descoberta, mais do que qualquer outra coisa, alterou o percurso da sua vida intelectual. Ela nutriu tanto uma profunda simpatia pelo anarquismo como uma hostilidade duradoura em relação ao socialismo autoritário.

Estas experiências moldaram a sua insistência em tratar os anarquistas não como mártires românticos nem como extremistas patológicos, mas como indivíduos pensantes que respondiam a condições históricas concretas. Após os levantamentos estudantis de 1968 em Paris, quando Avrich era professor no Queens College, insistiu em oferecer um curso sobre anarquismo. Quando o seu reitor se opôs inicialmente, Avrich terá ameaçado demitir-se. O curso foi aprovado e iria lecioná-lo durante os vinte anos seguintes.

O envolvimento de Avrich com o anarquismo ia muito para além da sala de aula. A partir de 1963, o jovem Avrich frequentava o banquete anual dos anarquistas judeus idosos em Nova Iorque. Participava também nas reuniões do Fraye Arbeter Shtime, um dos jornais anarquistas de maior duração, onde formou amizades duradouras e aprofundou a sua compreensão do anarquismo como uma cultura vivida. Por vezes, convidava veteranos do movimento para palestrar nas suas aulas. Em 1976, apresentou um discurso sobre um livro sobre os anarquistas russos, no âmbito da Série de Bibliotecas Operárias da IWW.

Uma das contribuições significativas de Avrich foi revelar como os anarquistas previram os perigos da Rússia Soviética, uma presciência que os estudiosos anteriores muitas vezes tinham negligenciado. Como observou o historiador da imigração Rudolph Vecoli, Avrich recordou aos estudiosos que os anarquistas tinham visto no socialismo de Estado, e particularmente no comunismo soviético, as sementes do totalitarismo. (1) Esta visão, que diferenciava os anarquistas de outros movimentos de esquerda, conferia ao trabalho de Avrich um sentido de urgência e clareza.

Só no final da década de 1970 é que Paul Avrich voltou o seu foco para o anarquismo americano, que explorou com paixão e precisão em vários livros ao longo das décadas de 1980 e 1990. Um momento crucial nos estudos anarquistas americanos ocorreu em 1980, quando Avrich desempenhou as funções de consultor e narrador do documentário Free Voice of Labor: The Jewish Anarchists, realizado por Steven Fischler e Joel Sucher, da Pacific Street Films. De seguida, participou num Workshop de História sobre Anarquismo Imigrante, organizado pela Biblioteca Tamiment, em Nova Iorque. Avrich foi novamente uma figura chave, proferindo uma palestra sobre o papel “amplamente ignorado” que os anarquistas desempenharam nas lutas laborais dos EUA nos séculos XIX e XX (2). Observou o desequilíbrio na historiografia do trabalho, que tinha enfatizado desproporcionalmente o papel dos comunistas nos sindicatos, e apelou a uma rectificação deste excesso.

Como observou o historiador Martin Miller, o trabalho de Avrich contrastava fortemente com os “relatos partidários” que outrora dominavam os estudos anarquistas, restabelecendo o campo “sobre uma base solidamente objectiva.”(4)

Avrich (segundo a contar da esquerda) com Ahrne Thorne e outros anarquistas judeus veteranos em Nova Iorque | “Free Voice of Labor” (Pacific Street Films, 1980)


Os métodos de Avrich, particularmente a sua dependência das biografias e da história oral, não foram isentos de críticas. David Goodway, por exemplo, descreveu o seu trabalho como “história altamente tradicional, na verdade história política ou, na melhor das hipóteses, história do trabalho não reformulada”. (4) Tais críticas não compreendem a natureza da intervenção de Avrich. O seu foco biográfico não era um recuo da história social, mas um meio de humanizar um movimento que muitas vezes tinha sido abstraído ou patologizado. Avrich enfatizou as dimensões éticas e racionais do anarquismo, qualidades frequentemente obscurecidas pela polémica ideológica. Outros historiadores perceberam-no claramente. O historiador trabalhista Nick Salvatore elogiou o trabalho de Avrich sobre Haymarket como uma “obra magnífica de história social”, destacando a sua hábil combinação de “história social e investigação académica com a técnica biográfica central à sua narrativa”. (5)

Para Avrich, o anarquismo nunca se reduziu ao sucesso ou insucesso dos movimentos políticos. O colapso das organizações anarquistas obscurece frequentemente as conquistas duradouras do anarquismo como um “movimento ético e cultural”. Era esta história mais profunda de valores, solidariedades e resistência moral que Avrich queria documentar e preservar. Como ele terá dito um dia: “No fundo, toda a boa pessoa é anarquista”.

Fundamental para esta conquista foi o seu extraordinário domínio das fontes. Fluente em russo e iídiche, Avrich teve acesso a um vasto conjunto de materiais em línguas estrangeiras inacessíveis à maioria dos estudiosos anteriores. Esta competência linguística permitiu-lhe recuperar as vozes dos anarquistas imigrantes, que constituíam a maior parte do movimento inicial. Embora Beyond the Martyrs (1988), de Bruce Nelson, tenha representado um passo importante para uma história social do anarquismo americano, foi Avrich quem, como escreveu Paul Buhle, “através de um esforço individual heróico”, mapeou o terreno arquivístico da história anarquista. (6) A dedicação de Avrich em desenterrar estas fontes ajudou a reformular a historiografia do anarquismo e estabeleceu-o como uma figura fundamental para os historiadores futuros.

Hoje, a obra de Avrich continua a ser amplamente lida. Ela ajudou a reimaginar o anarquismo como uma filosofia legítima e duradoura, cuja influência se estendeu muito para além dos movimentos sindicais organizados. Mesmo quando os indivíduos e os grupos hesitam em auto-intitular-se de anarquistas, as ideias anarquistas — autonomia ética, anti-autoritarismo, entreajuda — continuam a animar a vida política e cultural. O facto de esta continuidade ser agora visível aos historiadores deve-se, em grande parte, à vida dedicada à investigação académica de Paul Avrich.

Notas:

(1) Vecoli, “Review of Anarchist Portaits by Paul Avrich,” Journal of American Ethnic History Vol. 10, No. 3 (Spring 1991), 79

(2) Martin Blatt, “Two Letters from America: History Workshop on Immigrant Anarchism,” History Workshop No. 14 (Autumn 1982), 165-168.

(3) Miller’s review of Anarchist Portraits in The American Historical Review Vol. 95, No. 3 (Jun 1990), 784.

(4) Goodway, ed. For Anarchism: History, Theory, and Practice (New York: Routledge, 1989, 2013), 8-9.

(5) Salvatore, “Review of The Haymarket Tragedy by Paul Avrich,” The American Historical Review Vol. 90, No. 3 (Jun 1985), 772.

(6) Steven Biel, “Review: The Left and Public Memory,” Reviews in American History Vol. 23, No. 4 (Dec. 1995), 705.

Traduzido automaticamente de: https://freedomnews.org.uk/2026/02/16/remembering-paul-avrich/

Argentina: Protestos em massa contra as leis anti-laborais de Milei


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Centenas de feridos enquanto o Senado aprova restrições a greves e horários de trabalho de 12 horas


~ Gabriel Fonten ~

Milhares de manifestantes saíram às ruas da capital argentina, Buenos Aires, na semana passada (11 de fevereiro), para se oporem às reformas laborais que restringem o direito à greve e reduzem as prestações laborais. Os protestos, apoiados pelos maiores sindicatos do país, foram repetidamente reprimidos pela polícia com gás lacrimogéneo, balas de borracha e canhões de água. Segundo a Confederação Nacional dos Sindicatos da Argentina, mais de 700 mil pessoas marcharam em Buenos Aires e 1,5 milhões participaram em manifestações por todo o país de apoio aos “direitos do povo, à separação de poderes, à democracia e à Constituição”.

As reformas de Milei, já aprovadas pelo Senado argentino, incluem a eliminação de 30 dias de férias pagas, o aumento do horário de trabalho para até 12 horas, despedimentos facilitados para os empregadores, redução do subsídio de desemprego e restrições ao direito à greve. Estas reformas ocorrem num contexto de elevada inflação e pobreza na Argentina (ambas acima dos 30%), o que, no entanto, representa uma melhoria significativa em relação ao primeiro ano de mandato de Milei.

A repressão contra estes protestos parece ter sido particularmente generalizada e indiscriminada, com 562 pessoas a receberem alegadamente cuidados médicos de rua por ferimentos num único dia. Esta brutal repressão foi também utilizada no ano passado contra os pensionistas que protestavam contra pensões insuficientes.

A iniciativa legislativa de Milei surgiu após uma vitória esmagadora nas eleições intercalares na Argentina, onde o seu partido, “La Libertad Avanza”, obteve quase 41% dos votos em todo o país. Esta eleição decorreu num contexto de estreitamento das relações entre Milei e o presidente dos EUA, Donald Trump, recentemente marcado pela promessa de Trump de um espetacular pacote de ajuda de mais de 20 mil milhões de dólares. Trump, que anteriormente tinha afirmado que a ajuda “acabaria” se Milei perdesse, felicitou Milei pela sua vitória, dizendo: “Ele está a fazer um trabalho maravilhoso!”.

Traduzido automaticamente daqui: https://freedomnews.org.uk/2026/02/16/argentina-mass-protests-against-mileis-anti-labour-laws/

Erika Conrado, secretária-geral da CNT espanhola: ‘O capitalismo ainda nos pode levar a formas mais selvagens de exploração e miséria’


Erika Conrado, à esquerda. Foto: Lluís Maldonado

Erika Conrado, Secretária-Geral da Confederação Nacional do Trabalho (CNT) espanhola deu recentemente uma extensa entrevista ao jornal Nova Revolução (jornal alternativo do pais vizinho). Por nos parecer interessante, sobretudo porque em Portugal o que reina é o reformismo sindical, com sindicatos apáticos e sem dimensão revolucionária, traduzimos a entrevista que aqui publicamos.

(mais…)

Quando o anti-imperialismo não é interseccional



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À medida que as bolhas activistas se expandem, a resistência a toda e qualquer opressão deixa de ser encarada como um dado adquirido pelos grupos de solidariedade internacional


~ Alex Cuzzolino ~

Os protestos e as manifestações estão a tomar as ruas das cidades europeias, com a inquietação a crescer de dia para dia e com mais pessoas dispostas a tomar uma posição ou simplesmente a mostrar o quão cansadas estão do sistema em que estamos confinados. Esta crescente consciencialização está a expandir as nossas bolhas, e o que antes era um discurso confinado a pequenos movimentos organizados em pequenos espaços no centro do Império é agora uma conversa maior e mais ampla.

Na Dinamarca, onde me estou a organizar neste momento da minha vida, os movimentos de solidariedade internacional nunca foram muito expressivos. Atribuo isto às gerações anteriores de movimentos nos países nórdicos, que se concentravam mais no ambientalismo, e ao trabalho mais convencional dos sindicatos. No entanto, o início do genocídio na Palestina em 2023 acendeu a faísca e múltiplos exemplos de resistência e solidariedade internacional ocorreram por todo o país. Estes grupos cresceram exponencialmente nos últimos dois anos, incentivando outras pessoas a organizarem os seus próprios grupos quando a capacidade de integrar novos membros nos já existentes se tornou insuficiente.

A expansão desta bolha ocorreu rapidamente, talvez até demasiado depressa, apanhando-nos de surpresa. Daqui resultou uma multiplicidade de grupos que, embora lutem pela mesma causa, nem sempre concordam com a base política. Isto não é, obviamente, necessariamente algo negativo, mas torna-se quando cria dicotomias e a nossa luta deixa de ser interseccional.

Em nome do apoio à luta anti-imperialista acima de tudo, algumas partes dos movimentos de solidariedade mais recentes acabaram por se aliar a regimes terroristas que há séculos têm vindo a suprimir a liberdade dos seus cidadãos, esquecendo-se que duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo e que o inimigo do meu inimigo não é necessariamente meu amigo.

Esta tendência é extremamente visível para quem se dispõe a observá-la: grande parte dos movimentos de solidariedade mais recentes no Ocidente tende a apontar os EUA como responsáveis ​​por tudo o que é mau no mundo e a basear as suas políticas na falsa ideia de que todos os que agem contra os EUA estão a exercer uma forma válida de resistência.

Com este pensamento, confundem o princípio da solidariedade entre povos que procuram a liberdade e a dignidade com uma suposta solidariedade encontrada na lealdade a facções de Estados e governos.

O imperialismo norte-americano é mau: isto não significa que o regime de Maduro na Venezuela fosse bom, tal como não significa que o Estado dos ayatollahs seja o último bastião da luta contra o imperialismo. Israel infiltrou-se historicamente em protestos para promover a sua própria agenda imperialista e colonial: isto não transforma os protestos no Irão numa operação da Mossad, nem valida o apoio dos movimentos de esquerda ocidentais às ditaduras.

Porque é que achamos tão difícil priorizar a capacidade de ação dos povos em detrimento da dos Estados?

Embora seja fácil apontar o dedo aos tankies e aos trolls da internet, acredito que o que estamos a testemunhar, na sua essência, é uma falta de interseccionalidade nos movimentos de solidariedade. Trata-se de uma perda de complexidade no discurso, provocada pela urgência do momento que vivemos.

Uma das minhas primeiras causas de solidariedade foi com Rojava, a região curda do nordeste da Síria, e a Revolução das Mulheres que lá se realizava. Na bolha activista ocidental em que estava inserida, a solidariedade com o povo de Rojava e a sua revolução significava solidariedade com todos os povos oprimidos, bem como com o feminismo, o anticapitalismo e a ecologia. Sem isso, as pessoas podem acabar por apoiar os opressores em vez dos oprimidos, com base numa compreensão ocidental simplificada da luta contra o imperialismo.

A falta de interseccionalidade dentro do movimento não beneficia ninguém para além do Império, e nós, que estamos no centro dele, com todos os privilégios que daí derivam, temos a responsabilidade de manter a conversa matizada. Resgatar a complexidade na forma como falamos de solidariedade significa conseguir libertarmo-nos da dicotomia preto e branco, rejeitando todas as dicotomias forçadas que nos fazem pensar “se não isto, então aquilo”.

Precisamos de uma solidariedade que não seja apenas internacional, mas também interseccional.

Traduzido automaticamente daqui: https://freedomnews.org.uk/2026/02/11/is-our-international-solidarity-intersectional/

(Itália) Sabotagem e protestos em massa nos Jogos Olímpicos de Inverno


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~ Gabriel Fonten ~

Mais de 10 mil pessoas saíram às ruas de Milão no sábado, 7 de fevereiro, para protestar contra o primeiro dia dos Jogos Olímpicos de Inverno em Itália. Pequenos confrontos ocorreram quando a marcha principal se dispersou, mas confrontos maiores ocorreram durante a noite, quando os manifestantes acenderam sinalizadores e tentaram dirigir-se para a Aldeia Olímpica. Depois de a polícia ter usado bastões, canhões de água e gás lacrimogéneo (supostamente disparado diretamente contra os manifestantes), o grupo recuou e 6 pessoas foram detidas. Todas foram libertadas na mesma noite sob pressão dos outros manifestantes.

Organizada pelo Comité Olímpico Insustentável, a marcha percorreu o centro da cidade pedindo “a recuperação da cidade e a libertação das montanhas” e denunciando os danos ambientais causados ​​pelos eventos. Os protestos denunciaram ainda a presença da delegação de Israel nos Jogos Olímpicos, a chegada de agentes do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) que funcionam como seguranças para os atletas norte-americanos e o gasto de 3,5 mil milhões de euros de Itália em infraestruturas para os jogos, enquanto os serviços públicos estão em crise.

No dia anterior, a passagem da tocha olímpica foi interrompida por manifestações contra os patrocinadores olímpicos ENI e Coca-Cola e pelo seu envolvimento com Israel. A equipa israelita foi vaiada em massa na cerimónia de abertura, assim como o vice-presidente norte-americano J. D. Vance, que também foi recebido com vaias num jogo no dia seguinte.

Apesar do orçamento de segurança de 50 milhões de euros para os jogos, a preparação ficou marcada pela sabotagem de 70 chuveiros da Aldeia Olímpica, pela destruição do sistema de refrigeração da pista de tobogã e por eventuais ataques à rede ferroviária na véspera dos jogos. A polícia italiana informou que um desvio ferroviário foi incendiado perto de Pesaro, na costa do Adriático, e que cabos elétricos partidos foram descobertos horas depois perto de Bolonha, a cerca de 160 quilómetros de distância, com um engenho explosivo rudimentar deixado nas proximidades. Atos de sabotagem semelhantes, não reclamados, causaram graves atrasos na rede ferroviária francesa durante os Jogos Olímpicos de Verão de 2022, em Paris.

A primeira-ministra de extrema-direita, Georgia Meloni, classificou os manifestantes como “inimigos de Itália” e denunciou as tentativas de “prejudicar a imagem” do país no palco internacional. O seu governo continua a impor restrições aos protestos no país, mais recentemente com um novo pacote de “segurança” que permite a prisão preventiva de pessoas consideradas perigosas. Os protestos seguem-se a uma manifestação ainda maior no passado fim de semana em Turim, marcando um ressurgimento da mobilização social liderada pelos jovens em Itália, algo inédito em mais de uma década.

Tradução automática a partir de https://freedomnews.org.uk/2026/02/09/sabotage-mass-protests-at-winter-olympics/

Palestina: enfrentando a ameaça de desaparecimento


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Ataques coordenados de colonos, apoiados pelo exército israelita, estão a deslocar milhares de residentes de aldeias na Cisjordânia

~ Josie Ó Súileabháin ~

Era noite quando os colonos chegaram. Yusef Zawahreh e a sua mulher, Ayidah al-‘Adrah, preparavam-se para dormir quando, de repente, ouviram latidos de cães. Yusef, ainda de pijama, saiu para ver o que se passava. Voltou rapidamente para casa e trancou a porta.

Do posto avançado de Sde Yonatan, a cerca de 1,5 km da aldeia de Khallet A-Sidrah, na Cisjordânia ocupada, 50 colonos israelitas mascarados e armados dirigiam-se à comunidade palestiniana a 17 de janeiro de 2026. Alguns transportavam bastões, enquanto outros estavam armados com líquidos inflamáveis ​​e armas químicas.

Todos os residentes de Khallet A-Sidrah conseguiram fugir antes do início do pogrom. Todos menos Yusef e ‘Ayidah. Os colonos começaram a cercar a casa e a atacá-la com pedras, partindo as quatro janelas enquanto o casal se escondia no quarto. De repente, não conseguiam respirar, pois o gás pimenta foi lançado pelas janelas partidas.

Famílias palestinianas forçadas a fugir das suas casas enquanto colonos israelitas estabelecem novo posto avançado, Ras Ein Al-Auja, Cisjordânia, 8 de janeiro de 2026. Fotos: Avishay Mohar, Wahaj Bani Moufleh; cortesia da Activestills
“Depois arrombaram a porta do quarto”, conta ‘Ayidah a ‘Amer ‘Aruri, investigador de campo da B’Tselem. “Estavam vestidos de preto, com máscaras e transportavam bastões. Atacaram Yusef e derrubaram-no. Bateram-lhe brutalmente durante cerca de cinco minutos, enquanto ele gritava de dor.”

Outros três colonos mascarados entraram na casa e voltaram a sua atenção para ‘Ayidah, batendo com a cabeça contra a parede. “Fiquei tonta e caí, e depois bateram-me com mocas.” Arrastaram ‘Ayidah para fora, onde viu o seu marido, Yusef, a continuar a ser espancado pelos primeiros colonos.

“Arrancaram-me o véu”, recorda ‘Ayidah. “Doía-me profundamente, como mulher muçulmana religiosa, ter estranhos a expor o meu cabelo.” Continuaram a espancá-la durante mais três minutos e depois incendiaram a casa do casal com líquido inflamável, bem como outras três casas vizinhas.

Foi apenas quando apareceram lanternas vindas da aldeia vizinha de Mikhmas que os colonos decidiram fugir. Vários jovens encontraram Yusef e ‘Ayidah à porta da sua casa em chamas e levaram-nos imediatamente para um hospital em Ramallah.

Foi só depois de os colonos partirem que o exército israelita chegou. Tiraram algumas fotografias dos danos e depois foram embora silenciosamente, de volta à escuridão.

“Operações de Moldagem”

Dez dias após o ataque a Khallet a-Sidrah, o jornalista palestiniano Basel Adra testemunhou “um dos pogroms mais devastadores contra as comunidades palestinianas de Masafer Yatta nos últimos tempos”, com os residentes de três aldeias a serem atacados simultaneamente por colonos, coordenados pelo exército israelita.

Os residentes de Al-Fakheit, Al-Tuban e Al-Halawa relataram que os colonos estavam a roubar gado, a atacar famílias e a atear fogo. Num dos casos, uma mulher e os seus filhos foram trancados num barracão quando um grupo de colonos tentou incendiar a estrutura. As ambulâncias foram bloqueadas e o exército assistiu ao roubo de aproximadamente 300 ovelhas de onze famílias.

O próprio Basileia foi impedido de entrar e passar pelos postos de controlo móveis instalados para proteger os colonos, que a dada altura tentaram atacar um motorista de ambulância nos arredores de Al-Halawa.

Desde 2022, o número de colonatos e postos avançados ilegais aumentou 50%. Após 7 de Outubro de 2023, os colonos desapropriaram violentamente 44 comunidades palestinianas na Cisjordânia, retirando um total de 2.701 pessoas das suas casas. Em Janeiro e Fevereiro de 2025, mais de 40.000 pessoas foram deslocadas à força pelo exército israelita dos campos de refugiados em Tulkarem e Jenin.

A natureza sistemática do que se chama “violência dos colonos” pode ser resumida pelo Major-General Avi Bluth, Chefe do Comando Central do Exército de Israel: “Cada aldeia e cada inimigo devem saber que, se atacarem os residentes (colonos), pagarão um preço elevado”, anunciou Bluth. “Sofrerão recolher obrigatório, sofrerão cercos e sofrerão operações de repressão.”

“Operações de moldagem” é um termo orwelliano para a política do governo israelita de remodelar fisicamente áreas na Cisjordânia onde surgiu resistência palestiniana. Significa apoiar os colonos com pogroms, destruindo oliveiras e casas, construindo vedações e postos de controlo, e devastando a terra com tratores.

Um dos inúmeros exemplos disso é o ataque sofrido pelo jornalista palestiniano e co-realizador vencedor de um Óscar pelo filme “Nenhuma Outra Terra” (No Other Land), Hamdan Ballal al-Huraini. Na noite de 24 de março de 2025, enquanto Hamdan preparava a refeição do Iftar (quebra do jejum) do Ramadão, os colonos invadiram a aldeia de Susiya e começaram a atacar os seus moradores.

Hamdan saiu para filmar com o telemóvel, mas depois voltou para casa. À medida que a violência aumentava, Hamdan conta à revista +972: “Tive medo pela minha família, que estava sozinha em casa. Por isso, corri para casa, fechei a porta e fiquei do lado de fora para os proteger. Aproximaram-se de mim. Continuei a filmar com o telemóvel”.

Dois soldados israelitas apontaram as armas automáticas a Hamdan, enquanto o colono Shem Tov Lusky caminhava atrás dele e o golpeava na nuca. “Caí no chão”, recorda Hamdan, “o meu telemóvel caiu da minha cabeça.”

Foi espancado no chão por Lusky pelo menos dez vezes na cabeça, sob a mira de armas. Deixaram Hamdan a sangrar no chão, em frente à sua família, quando um polícia israelita se aproximou. “Precisa de ajuda?”, perguntou o polícia. Em vez de chamar uma ambulância, o exército israelita chegou novamente e deteve Hamdan e outros dois residentes de Susiya.

“Sem futuro”

A tática é simples, mas as consequências são mortais. Primeiro, um posto avançado é instalado perto de uma aldeia palestiniana por colonos com a proteção do exército israelita. Para aqueles que vivem na Área C da Cisjordânia ocupada, apenas as autoridades israelitas têm o poder de aprovar construções dentro da área, por vezes sob o pretexto de construir uma base militar.

De seguida, chegam os colonos com o seu gado, utilizando o pastoreio como meio de invadir as terras dos pastores beduínos que ali vivem, numa tentativa de se apropriarem das mesmas. Isto provoca uma reação dos residentes ou os colonos alegam posteriormente às autoridades que as suas ovelhas foram roubadas. De acordo com a ONG israelita Kerem Navot, 14% das terras da Cisjordânia foram tomadas desta forma desde abril de 2024.

Para a aldeia de Ras ‘Ein al-‘Auja, o processo foi lento, mas sistemático. A 8 de janeiro de 2026, o fotojornalista israelita Avishay Mohar documentou a deslocação forçada de 26 famílias da aldeia de Ras ‘Ein al-‘Auja, na Cisjordânia, considerada uma das maiores comunidades pastoris e uma das últimas comunidades palestinianas que restam na região norte de Jericó.

Naif Ghawanmeh, antigo residente de Ras ‘Ein al-‘Auja, descreveu o processo à Al Jazeera, afirmando que foram “dois anos de pressão psicológica noturna”. “Se dormisse, os colonos queimariam a sua casa.”

Em Fevereiro de 2024, cinco colonos de um posto avançado vizinho chegaram à aldeia de Ras ‘Ein al-‘Auja armados com mocas, facas e armas de fogo para expulsar os pastores palestinianos. Alegaram que os pastores lhes tinham roubado as ovelhas e estavam acompanhados por polícias israelitas e soldados da ocupação. As autoridades dispararam tiros para o ar e os colonos roubaram o gado de Ahmad Rashaidah.

Enquanto isto acontecia, a polícia deteve o irmão de Ahmad, Muhammad, algemou-o e levou-o para uma base militar, onde foi interrogado durante quatro horas. Entretanto, os colonos já tinham arrancado as etiquetas de identificação das ovelhas e levado. O processo repete-se inúmeras vezes até deixar de ser uma farsa e se transformar num apagamento sistemático.

No final de 2025, um colono entrou em Ras ‘Ein al-‘Auja com um rebanho de cabras e caminhou entre as casas, incendiando a terra. Quando activistas solidários chamaram a polícia, eles próprios foram detidos, como era de esperar, sob o falso testemunho de um colono. À tarde, toda a comunidade foi invadida por colonos, pela polícia de fronteira e pelo exército.

Grupos de proteção, como o Looking the Occupation in the Eye, tentam documentar e bloquear fisicamente o assédio, os roubos, as invasões domiciliárias e as táticas diárias de intimidação utilizadas pelos colonos. Crianças foram assediadas a caminho da escola, terrenos foram destruídos e cabos de energia cortados por colonos em tratores. Os reservatórios de água, vitais para a criação de ovelhas, foram esvaziados.

No final de Janeiro de 2026, os residentes estavam a desmantelar as suas próprias casas e a incendiar o que restava – para não deixar nada aos colonos que os tinham expulsado à força das suas terras. “Muitos estão a tornar-se refugiados pela terceira vez”, relatou Oren Ziv à Active Stills, “depois de terem sido inicialmente expulsos do Naqab na Nakba de 1948, e em 1967 do sul da Cisjordânia e novamente do Vale do Jordão.”

“Não há nada mais difícil do que desmontar a própria casa”, disse o antigo residente Husseini Rashid à revista +972. “Vocês perderam”, disseram os colonos antes de partirem. “Para onde quer que vocês vão, nós iremos. Não há futuro.”

Trabalhando coletivamente

A 21 de janeiro de 2026, três jornalistas estavam juntos num veículo operado pelo Comité Egípcio para o Auxílio a Gaza para documentar um campo de deslocados recém-criado no centro de Gaza. Anas Ghoneim, Abdul Raouf Samir Shaat e Muhammad Salah Qasht viajavam juntos pelo chamado Corredor Netzarim quando o carro em que seguiam foi atingido por um ataque aéreo israelita, matando instantaneamente os três jornalistas.

Dois dos corpos destes jornalistas palestinianos foram levados para o hospital Al-Shifa, onde a cena de luto foi registada por Yousef Zaanoun para a Active Stills. Os seus nomes juntam-se à longa lista de jornalistas visados ​​diretamente pelo exército israelita. Desde 7 de outubro, estima-se que entre 200 a 300 profissionais dos media tenham sido afetados.

Tem sido constantemente noticiado que os jornalistas internacionais não podem entrar em Gaza, mas isso em si é uma mentira. Shaat era colaborador regular da Agence France-Presse (AFP) e enviava regularmente reportagens para a estação norte-americana CBS News; as suas imagens do genocídio em Gaza chegaram a um público internacional. Parece que o que entendemos por “internacional” não inclui os palestinianos.

Nos dias que se seguiram a 7 de outubro, o ministro das Comunicações de Israel, Schlomo Karhi, informou o New York Times e a Reuters que os jornalistas freelancers em Gaza tinham conhecimento prévio dos ataques ao sul de Israel, classificando-os como “terroristas disfarçados de jornalistas”. Embora Karhi tenha dito aos meios de comunicação ocidentais que não estavam a visar os jornalistas, também admitiu que não podiam “garantir a segurança dos seus jornalistas em Gaza”.

Para que aqueles que trabalham na linha da frente do apagamento sistemático sobrevivam, os recursos precisam de ser partilhados. Este espírito colectivo pode ser visto no Activestills, “um grupo de fotógrafos activistas que usam a fotografia ao serviço da luta pela libertação e descolonização na Palestina/Israel”, como o jornalista palestiniano Ahmad Al-Bazz descreveu o colectivo ao Jewish Currents em 2022.

“Criámos um coletivo”, diz Ahmad, “porque trabalhar em conjunto é mais poderoso do que trabalhar individualmente. É um coletivo com uma estrutura horizontal. Não há um chefe, ninguém atribui tarefas”. Tanto Oren Ziv como Avishay Mohar, cujas reportagens são um contributo vital para esta investigação, são membros do coletivo Active Stills.

Para a produção de ‘No Other Land’, um trabalho colaborativo entre Hamdan, Yuval Abraham, Racheal Szor e Basel Adra, a documentação é uma luta contra o apagamento. É um registo permanente da destruição.

“Numa cena do filme”, conta Hamdan à revista +972, “a mãe do falecido Haran Abu Aram – um residente palestiniano que foi baleado e ficou paraplégico pelos soldados israelitas enquanto confiscavam o seu gerador – lamenta a presença constante de jornalistas e câmaras na sua casa improvisada, que vêm fotografar o seu filho deficiente…”

“Tiram fotografias”, diz ela, “mas que ajuda oferecem realmente?”

“O filme é a nossa tentativa de responder a esta exigência: pegar na câmara, e nos anos de protestos, demolições e violência documentados, e fazer algo para mudar a vida do povo de Masafer Yatta”, disse Hamdan.

Traduzido automaticamente a partir de: https://freedomnews.org.uk/2026/02/09/palestine-looking-erasure-in-the-eye/

DECLARAÇÃO OFICIAL DE VALERIA CHOMSKY SOBRE JEFFREY EPSTEIN


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(No seguimento dos posts que partilhámos sobre Noam Chomsky e das suas relações com Jeffrey Epstein, publicamos a seguir a posição defendida pela sua mulher numa declaração divulgada há poucas horas).

Como muitos sabem, o meu marido, Noam Chomsky, agora com 97 anos, está a enfrentar graves problemas de saúde após ter sofrido um AVC devastador em junho de 2023. Atualmente, Noam está sob cuidados médicos 24 horas por dia, 7 dias por semana, e está completamente impossibilitado de falar ou participar em discursos públicos.

Desde esta crise de saúde, tenho-me dedicado inteiramente ao tratamento e à recuperação do Noam, sendo a única responsável pelo mesmo e pelo seu tratamento médico. Eu e o Noam não contamos com qualquer tipo de assessoria de imprensa. Por esse motivo, só agora pude abordar a questão dos nossos contactos com Jeffrey Epstein.

O Noam e eu sentimos um profundo peso em relação às questões não resolvidas que envolvem as nossas interações passadas com o Epstein. Não desejamos deixar este capítulo envolto em ambiguidade.

Ao longo da sua vida, Noam insistiu que os intelectuais têm a responsabilidade de dizer a verdade e expor mentiras — especialmente quando essas verdades lhes causam desconforto.

Como é amplamente sabido, uma das características de Noam é acreditar na boa-fé das pessoas. A natureza excessivamente confiante de Noam, neste caso específico, levou a um grave erro de julgamento da nossa parte.

Com razão, foram levantadas questões sobre os encontros de Noam com Epstein e sobre a assistência administrativa prestada pelo seu gabinete em relação a um assunto financeiro privado — que não tinha absolutamente nenhuma relação com as condutas criminosas de Epstein.

Noam e eu fomos apresentados a Epstein ao mesmo tempo, durante um evento profissional de Noam em 2015, quando a condenação de Epstein em 2008 no estado da Flórida era conhecida por muito poucas pessoas, enquanto a maioria do público — incluindo Noam e eu — desconhecia o facto. Isso só mudou após a reportagem do Miami Herald em novembro de 2018.

Quando fomos apresentados a Epstein, ele apresentou-se como um filantropo da ciência e um especialista em finanças. Ao apresentar-se desta forma, Epstein chamou a atenção de Noam, e começaram a trocar correspondência. Sem saber, abrimos a porta a um cavalo de Tróia.

Epstein começou a rodear Noam, enviando presentes e criando oportunidades para discussões interessantes em áreas em que Noam tinha vindo a trabalhar extensivamente. Lamentamos não termos percebido isto como uma estratégia para nos enredar e tentar minar as causas que Noam defende.

Almoçámos no rancho de Epstein uma vez, a propósito de um evento profissional; participámos em jantares em sua casa em Manhattan e ficámos algumas vezes num apartamento que ele ofereceu quando visitámos Nova Iorque. Visitámos também o apartamento de Epstein em Paris numa tarde, por ocasião de uma viagem de trabalho. Em todos os casos, estas visitas estavam relacionadas com os compromissos profissionais de Noam. Nunca fomos à sua ilha nem soubemos de nada do que lá se passou.

Participámos em encontros sociais, almoços e jantares onde Epstein esteve presente e foram discutidos assuntos académicos. Nunca presenciámos qualquer comportamento inadequado, criminoso ou reprovável por parte de Epstein ou de outras pessoas. Em momento algum vimos crianças ou menores de idade que estivessem presentes.

Epstein propôs encontros entre Noam e figuras do seu interesse, devido às diferentes perspetivas que tinham sobre temas relacionados com o trabalho e o pensamento de Noam. Foi neste contexto académico que Noam escreveu uma carta de recomendação.

O e-mail de Noam para Epstein, no qual Epstein procurava aconselhamento sobre a imprensa, deve ser lido naquele contexto. Epstein alegava a Noam que estava a ser perseguido injustamente, e Noam falou a partir da sua própria experiência em controvérsias políticas com os media. Epstein criou uma narrativa manipuladora sobre o seu caso, na qual Noam, de boa-fé, acreditou. Agora é claro que tudo foi orquestrado, tendo como uma das intenções de Epstein, pelo menos, tentar que alguém como Noam ajudasse a recuperar a sua reputação por mera associação.

As críticas de Noam nunca foram dirigidas ao movimento feminista; pelo contrário, sempre apoiou a igualdade de género e os direitos das mulheres. O que aconteceu foi que Epstein aproveitou as críticas públicas de Noam ao que ficou conhecido como a “cultura do cancelamento” para se apresentar como vítima da mesma.

Só após a segunda detenção de Epstein, em 2019, tivemos conhecimento da extensão e da gravidade do que eram então acusações — e estão agora confirmadas — crimes hediondos contra mulheres e crianças.

Fomos negligentes ao não pesquisar a fundo o seu historial. Este foi um erro grave, e por esta falha de julgamento, peço desculpa em nome de ambos. O Noam partilhou comigo, antes do seu AVC, que sentia o mesmo.

Em 2023, na resposta pública inicial de Noam às perguntas sobre Epstein este não reconheceu adequadamente a gravidade dos crimes de Epstein e a dor persistente das suas vítimas, principalmente porque Noam considerou óbvio que condenava tais crimes. No entanto, é sempre necessária uma posição firme e explícita sobre tais assuntos. Foi profundamente perturbador para ambos percebermos que tínhamos interagido com alguém que se apresentava como um amigo prestável, mas que levavauma vida oculta de atos criminosos, desumanos e pervertidos.

Desde a revelação da extensão dos seus crimes, ficámos chocados.

Para esclarecer o que e passou com o cheque, Epstein pediu a Noam que desenvolvesse um desafio linguístico que Epstein desejava estabelecer como um prémio regular. Noam trabalhou nisso e Epstein enviou um cheque de 20.000 dólares como pagamento. O escritório de Epstein contactou-me para tratar do envio do cheque para o nosso endereço residencial.

Relativamente à transferência relatada de aproximadamente 270.000 dólares, devo esclarecer que estes eram fundos próprios de Noam. Na altura, Noam tinha identificado inconsistências nos seus recursos de reforma que ameaçavam a sua independência financeira e lhe causavam grande angústia. Epstein ofereceu assistência técnica para resolver esta situação específica. Neste caso, Epstein agiu em conformidade, recuperando os fundos para Noam, numa demonstração de ajuda e, muito provavelmente, como parte de uma maquinação para obter um maior acesso a Noam. Epstein atuou exclusivamente como consultor financeiro para esta questão específica. Tanto quanto sei, Epstein nunca teve acesso às nossas contas bancárias ou de investimento.

É importante esclarecer também que eu e o Noam nunca tivemos investimentos com a Epstein ou com o seu escritório, individualmente ou como casal.

Espero que esta retrospetiva esclareça e explique as interações de Noam Chomsky com Epstein.

O Noam e eu reconhecemos a gravidade dos crimes de Jeffrey Epstein e o profundo sofrimento das suas vítimas. Nada nesta declaração pretende minimizar este sofrimento, e manifestamos a nossa total solidariedade para com as vítimas.

7 de fevereiro de 2026.

Valéria Chomsky

aqui: https://www.reddit.com/…/full_official_statement_from…/

O cinema anarquista de Jean Vigo


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Jean Vigo (1905-1934) foi um cineasta, filho do anarquista Eugène-Bonaventure de Vigo (também conhecido por Miguel Almereyda), sobretudo conhecido por dois filmes aclamados pela crítica: Zéro de Conduite (1933), que relata a história de uma revolta estudantil contra os seus rigorosos professores, e L’Atalante (1934), uma história de amor entre um jovem marinheiro sem rumo e a sua mulher.

Para além do ativismo político do pai, que merece um estudo à parte, os filmes de Vigo carregam uma clara marca anarquista. O seu primeiro trabalho foi um filme mudo de média-metragem chamado À propos de Nice (1930), que retrata as desigualdades sociais em Nice durante a década de 1920; naturalmente, o filme é uma crítica mordaz à burguesia que passava os verões na cidade. Aquela que viria a ser uma das suas maiores obras, Zéro de Conduite , baseia-se fortemente nas experiências pessoais do cineasta, que passou grande parte da sua infância em colégios internos. O filme pode ser visto como uma incorporação das propostas pedagógicas de Ferrer i Guàrdia como base para uma nova ordem social anti-autoritária, mas também antecipa, no seu vitalismo e espontaneidade, e na sua ênfase na educação dos sentidos, outras propostas radicais contra a escolarização, como as de Paul Goodman e Ivan Illich.

De facto, Zéro de Conduite exemplifica o vasto leque de propostas educativas anarquistas, procurando ligar a busca da espontaneidade na infância, unindo o lúdico à proucra do conhecimento, com as mais nobres aspirações sociais. No filme, pode ver-se uma analogia evidente entre a escola e a prisão quando se mostra um internato sombrio e espartano. A conformidade, o gosto pela ordem e pela disciplina, e a constante vigilância institucional que aterroriza as crianças obrigam-nos a ver a escola como um reflexo do Estado numa crítica claramente anarquista. Vigo emprega um tom claustrofóbico no filme, que revela claramente a sua visão burocrática da escola, bem como um distanciamento das personagens mais autoritárias. Há também uma divisão rígida entre a sala de aula, o lugar do conhecimento, e o pátio, um espaço para brincar, algo que ele tenta transgredir em algumas sequências significativas ao longo do filme.

Os académicos consideram Zéro de Conduite um exemplo e uma exposição da pedagogia anarquista; não admira, por isso, que o filme esteja longe de ser benevolente com qualquer personagem que tente abafar a espontaneidade na infância e se esforce, em contraste, por defender o anti-autoritarismo, algo que o realizador retrata com grande habilidade cinematográfica. O filme começa com um certo desprezo pelas falsas virtudes da uniformidade, promovidas por quem está em posições de autoridade, mas atinge um dos seus pontos culminantes numa rebelião extrema contra a ordem estabelecida (ainda que baseada nos códigos da infância). Numa cerimónia formal para celebrar o final do ano letivo, com a presença de representantes do Estado e da Igreja, os alunos mais radicais interrompem a cerimónia com assobios, atirando sapatos e usando armas improvisadas contra os ilustres convidados, antes de fugirem para a liberdade.

Como é evidente, não se trata apenas de uma rebelião contra uma escola, mas contra a própria instituição educativa, com uma clara motivação anti-estatal e anticlerical. O final do filme, embora surpreendentemente aberto, incorpora algumas propostas anarquistas de base comunitária como alternativa ao ensino repressivo; contudo, como já foi referido, também levanta dúvidas sobre se uma alternativa é sequer possível, ou se a resposta reside numa “desescolarização” generalizada (uma solução também considerada pela pedagogia libertária). O filme de Vigo, apesar de tudo, é extremamente eficaz na sua crítica à educação tradicional e autoritária.

A outra grande obra de Vigo, L’Atalante, pode ser considerada um complemento a Zéro de Conduite. Embora este último proponha uma pedagogia radical, fá-lo em parte através de um compromisso com a educação dos sentidos, algo que L’Atalante também defende. O enredo do filme é, à primeira vista, muito simples: Jean, um indolente capitão de barco, separa-se da vibrante Juliette, e só se reencontram graças ao velho amigo rabugento de Jean, o adorável Tio Jules. O filme defende claramente o desenvolvimento pessoal, mas também mostra que as relações românticas são indissociáveis ​​das particularidades do tecido social; Vigo aborda, por diversas vezes, aspetos que outros cineastas considerariam supérfluos, como o desemprego, a criminalidade e a atitude implacável da burguesia.

L’Atalante é uma obra radical, sem dúvida, mas também admiravelmente complexa na sua expansão do discurso humanista. A personagem do Tio Jules possui uma força vital de natureza anarquista, o que é evidente em diversas sequências onde se esforça por transgredir as convenções sociais, por vezes de forma cómica; a sua personalidade mistura um hedonismo vibrante com um radicalismo anti-autoritário, algo admirável e, de certa forma, exemplar na narrativa. Como seria de esperar, o legado anarquista que Jean Vigo abraça apresenta o espaço urbano em L’Atalante de forma ambivalente; pode ser tanto um espaço repressivo que deve ser evitado como um lugar a ser reivindicado através de ações diretas e libertárias. Assim, o filme mostra a pobreza e a miséria a coexistirem com aspirações utópicas. Tanto Zéro de Conduite como L’Atalante são exemplos notáveis ​​de grande cinema e de uma pedagogia radical e não dogmática que resistiram ao teste do tempo de forma notável e merecem ser revisitados, sobretudo face à banalidade generalizada no cinema contemporâneo.

Capi Vidal

Traduzido automaticamente de https://acracia.org/el-cine-anarquista-de-jean-vigo/